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o meu blog favorito

o meu blog favorito

09
Ago20

seria tão mais fácil...

Seria tão mais fácil se eu fosse uma pessoa menos profunda... Daquelas que não sentem as coisas com toda a intensidade e mais alguma. Seria tão mais fácil se eu não tivesse os sentimentos tão à flor da pele, se as coisas não me atingissem como um telhado em cheio na cara... Se eu não fosse tão sensível, se não me doesse tanto a ponto de querer rasgar pele, orgãos e alma.

Por outro lado... Nunca na minha vida eu quero ser essa pessoa que diz "ah, é só um animal, não faz mal". Prefiro que me considerem a pior pessoa do mundo, a mais estúpida, a mais feia... Mas nunca a que olha para um animal inocente e diz "estás a sofrer? Nah, os animais não sofrem". Nunca a que olha para uma pessoa sem casa, sem comida, sem um casaco durante o inverno e diz "pelo menos não sou eu... Trabalhasses!".

Hoje já me fartei de chorar. Hoje dói-me tudo. E se vos contar o motivo, vocês vão achar-me doida. Mas eu sou mesmo assim. E embora fosse tão mais fácil ser totalmente desligada de tudo e 100% racional, eu ainda prefiro sofrer horrores do que não sentir nada...

07
Ago20

agosto

O ano passado, algures por estes dias, a minha ex (ex ) casinha online nasceu. Foi criada com amor e sem muitas expectativas, mas aguentou-se bastante bem. Hoje decidi lá voltar. Para lembrar as pessoas e para me lembrar a mim mesma.

Entrei e deparei-me com os 101 posts. Não vou dizer que foi o blog onde mais escrevi, mas foi com certeza o blog onde escrevi mais a sério! Isto porque nunca me tinha permitido abrir tanto na internet como fiz através daquele blog. Mas tenho uma coisa a apontar! Porque caralhos é que ninguém me chamou no privado e disse "amor, para enquanto dá tempo"? É que bolas, eu escrevi lá cada merda... Que vergonha.

Foi o blog onde interagi mais com as pessoas. Porque nunca escrevi para os outros e ter tanta gente sempre a comentar o que eu escrevia fez-me sentir menos sozinha. Comecei a considerar a blogosfera um bairro de verdade pois sentia mesmo que todos ali eramos vizinhos e zelavamos uns pelos outros (se é que isto faz algum sentido).

Infelizmente já não sei de praticamente ninguém. Será que se perderam no monte?!  Tenho saudades de algumas pessoas, confesso. Confesso também que outras já não podia ver à frente! É que malta parva há mesmo por todo o lado.

Foi nesse blog que participei num desafio de escrita. Eu! Ainda hoje não sei como é que me fui meter nessa, mas o que é certo é que meti... E até gostei.

Não vou negar, às vezes sinto saudades daquele espaço. Às vezes sinto saudades daquela época... Quem vem de lá sabe que na altura havia imensa malta e a maioria estava a começar também um blog, então meio que nos compreendiamos uns aos outros, sei lá... Era diferente. Hoje escrevo por prazer e tudo mais, mas também escrevo por costume. Porque já me é natural ter um blog. Porque já não é novidade. Perdeu um pouco a magia, mas ao mesmo tempo ainda é importante para mim. Por isso é que continuo cá...

Hoje olho para trás e penso "será que valeu mesmo a pena ter saído de lá?". Mas a verdade é que fez sentido para mim na altura e isso já responde à questão. De qualquer das formas eu ainda sou eu. Ainda escrevo com a mesma intensidade, às vezes com o mesmo humor estúpido e sem piada, mas sempre com a mesma verdade. Um pouco mais triste e contida? Sim, mas ainda assim eu. Sempre eu.

06
Ago20

vai à merda

Não pensei escrever este post. Não pensei que me fosse incomodar tanto ao ponto de ter de vir aqui desabafar. Mas a realidade é que incomoda. Não gosto de te ver jogar esse jogo tão baixo, tão sujo, tão infantil e tão óbvio. Não acho bonito. Não me identifico. É forçado demais e nem bem te fica... Não vês isso? Não olhas para as tuas atitudes e palavras e vês que são ridículas? Que não são de uma pessoa "dessa idade toda"?

Eu afasto-me. Afasto-me porque prefiro ver-te brilhar de longe. Ainda que o teu brilho seja, aparentemente, luzes pisca pisca do chinês. Mas brilha. Se achas que estás bem, brilha. Da minha parte só me ocorre mandar-te à merda. Verdana, tamanho 18 e negrito... Tudo aquilo a que tens direito. Assim, ó: vai à merda.

04
Ago20

homens e mulheres

Homens... Acho-os uma espécie de outro mundo. Por serem tão básicos, tornam-se complexos... Em certa parte como nós, mulheres.

Nós sabemos muito bem o que eles gostam e querem, mas nem sempre temos paciência para as suas futilidades. Loira de olhos azuis e corpo exuberante com pelo menos um metro e setenta? Fofo, mas tu és algum deus grego? Desculpa perguntar, é que tenho miopia e estou sem óculos.

Todas nós já odiamos os homens. Um dia, algures na nossa vida, possivelmente logo após o nosso coração ter sido arrancado à dentada por um bartolo qualquer, já afirmamos "os homens não valem nada!"... Porém, todas nós voltamos a cair nas suas manhas e artimanhas. E talvez eles achem que são os "máiores" da aldeia, mas não, não tem a ver com inteligência deles... É que bem vistas as coisas, eles dizem sempre as mesmas tretas... Nós é que relevamos. Até começo a achar que os homens são treinados num espaço militar qualquer debaixo de terra e, por isso, como alunos que copiam num teste, dão sempre as mesmas desculpas. Por falar nisso, quantas de vós já não foram chamadas "doidas" quando descobriram, por exemplo, uma conversa suspeita com aquela amiga que, segundo ele, é sempre "só uma amiga"? As provas estão lá, mas os homens são bichos estranhos que nos passam atestados de burrice... É que mesmo com provas eles negam até à morte. "Eu????? Jamais te faria isso!!!! Tens tão pouca consideração por mim... Tu és doida!!!!".

Os homens também são fisicamente engraçados. Conseguem rodar o pescoço tal e qual uma coruja quando uma mulher passa (e às vezes até se antecipam, rodam a cara antes mesmo de passarmos). Agora, não me digam que os homens são mais porcos que as mulheres, porque nessa não me fio.

Já ouvi mais piadas sexuais baratas de amigas do que de amigos. Aliás, com amigas nem um gelado podia comer, que me incentivavam logo a colocar o máximo na boca para verem os meus "dotes". Ah, já ouvi um colega de turma dizer "as pernas são a parte que menos gosto numa mulher, por isso meto-as sempre para o lado" e eu, que não sou de muitas tangas, desmanchei-me logo a rir. Inclusive guardo essa frase com muito carinho no meu baú mental de "frases para a vida".

Os homens contam tudo aos amigos. Será? Já estive com um rapaz que efectivamente decidiu partilhar com os amigos. Não é uma experiência boa, sobretudo se conhecemos os amigos em questão. Por outro lado, sei todas as experiências sexuais (ou pseudo experiências, que também contam) das minhas amigas... E ainda por cima com detalhes sórdidos. Nunca mais consegui olhar para o copo de refrigerante do cinema da mesma maneira, por exemplo. E se acham que eu só falo de tamanhos... Antes fosse! Tenho imagens mentais de coisas que preferia não ter e até sei frases/palavras ditas pelos dates das minhas amigas na hora H. A cena é... Muitos desses dates são os namorados delas, e isso é só super constrangedor para mim... Porque eles não fazem ideia! Confesso que acho isso porco e sujo.

Os homens exigem postura, mas mandam tiros a tudo o que mexe. Acho giro. Eles querem uma princesa educada e pacata, mas leoa na cama. Já nós preferimos os cagões que se armam em príncipes, mas que no fim são os tais idiotas embrulhados em papel de alumínio.

Será que sabemos mesmo como agradar um gajo? I mean... Saber até sabemos, mas não temos a flexibilidade de uma atriz porno para nos colocarmos em posições desumanas durante três minutos. Mas e eles, sabem como nos agradar? Eu acho que sim. No fundo no fundo não somos tão diferentes umas das outras... No geral, todas queremos mais ou menos o mesmo. Eles é que têm preguiça... Dá trabalho, percebem.

 

Somos tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais. Simples e complicados. Até que sabemos como lidar com o sexo oposto... Mas que é cansativo, isso é. Porque apesar de todas as semelhanças, somos de mundos completamente diferentes.

 

ps: Não me levem a sério, levem-me aos Açores.

03
Ago20

amigos

Sou um bicho no que toca a socialização. Talvez pelo blog e até mesmo pelas redes sociais eu não mostre tanto essa minha faceta, mas eu sou realmente uma pessoa tímida e fechada. Quem me conhece online e depois conhece pessoalmente nota bem essa diferença. Em pessoa, pelo menos no início, eu sou calada, falo baixinho e ainda tenho a ousadia de tapar a cara com vergonha. Para não falar que não consigo manter contacto visual, mas isso é história para outro dia.

 

Apesar de eu ser tão tímida que chega até a ser constrangedor, sempre tive amigos. Já fui amiga das miúdas populares da escola, o que na altura me deu um certo reconhecimento. Mas elas não tardaram a mostrar que a beleza que tinham por fora não correspondia ao interior. Um dia decidiram gozar com uma colega da nossa turma por ela ser gordinha. Eu simplesmente levantei-me sem lhes dizer nada e fui sentar-me ao lado dessa rapariga. Disse-lhe que ela era bonita e a partir daí tornamo-nos grandes amigas. Nunca mais falei com as outras, inclusive elas começaram a ser más para mim também. Depois fui conhecendo raparigas e rapazes, todos diferentes uns dos outros. Tinha uma grande turma de amigos físicos com quem estava diariamente, e outra igualmente grande de amigos virtuais com quem falava todas as noites. 

 

Sempre fui vista como a "amiga psicóloga". Eu ajudava toda a gente com tudo, desde a escolher o vestido ao rapaz ideal. Cheguei ao cúmulo de estar a trocar mensagens com um namorado que estava triste e ter duas amigas, uma de cada lado, a falar ao mesmo tempo sobre os seus problemas. Eu dividia-me em várias partes para tentar chegar a toda a gente. E não me importava com isso... Até ao dia em que precisei e ninguém fez o mesmo comigo.

 

Quando tinha quinze anos a minha depressão acordou. Eu mudei muito... Se calhar tanto ao ponto de me tornar irreconhecível. Se antes era brincalhona, tinha sempre resposta na ponta da língua e camuflava sentimentos com piadinhas idiotas, passei a ser muito mais reservada, contida e triste. E logicamente que ninguém tinha pachorra para aturar uma gaja assim. Eu compreendo. Nunca ninguém me ofereceu um ombro para chorar... É que nem um lencinho para enxugar as lágrimas - nem mesmo as pessoas a quem sempre dei colo. Percebi que não eram amizades verdadeiras... Eram amizades de conveniência! Afinal eu não era a "amiga psicóloga". Eu era a "amiga prostituta". Aquela a quem ligavam quando precisavam de descontar o dia mau ou as frustrações e quando finalmente estavam satisfeitos mandavam embora e tratavam com desdém.

Um pouco mais crescida conheci miúdas simpáticas e divertidas com quem enfrentei várias adversidades. Miúdas que me convidavam todas as semanas para sair à noite mesmo sabendo que a resposta ia ser "não". Miúdas que me prometeram estar sempre disponíveis para mim. O meu mal foi ter acreditado nas falsas promessas e não ter aberto os olhos a tempo.

Uma das minhas grandes amigas, aquela que eu considerei uma irmã por dez anos, engravidou. Quando soube a nossa amizade mudou para melhor e eu apaixonei-me pela criança que ela carregava como se fosse um pedaço de mim. No dia a seguir a saber que era uma menina, comprei presentes com o pouco dinheiro que tinha. E estive ao lado dessa amiga durante toda a gravidez. Quando a bebé nasceu a minha amiga simplesmente desapareceu do mapa. Não fui vê-la ao hospital porque ela não me convidou e eu achei que aquele era um momento para ser vivido em família. Também não fui a casa dela conhecer a pequena nem entregar os presentes porque ela, mesmo sabendo que eu os tinha, nunca me chamou! Pensei que fosse de tudo o que estava a acontecer... Afinal de contas ela era mãe de primeira viagem, a aprender tudo, com a vida totalmente mudada, a recuperar de um parto que eu considero um tanto traumático e a lidar com o pai da filha que lhe partiu o coração no momento em que ela mais precisava dele. Mas não encontro desculpa para hoje, dois anos depois, eu nem sequer saber como é que a menina é. Foi uma facada. E se não foi, doeu como se tivesse sido.

Já as restantes pessoas cagaram para mim a partir do momento em que subiram na vida. Quando estavam na merda eu era importante e convinha estar por perto, quando atingiram objectivos e sonhos espetaram-me o dedo do meio. Uma gaja até já tem costas de aço, com a quantidade de facas que já cá cravaram.

 

O ano passado afastei-me de toda a gente. Obriguei-me a abrir os olhos para coisas que eu já tinha visto, mas preferia negar que eram verdade. Como por exemplo ter uma amiga que me criticava subtilmente sempre que alguém de fora me fazia um elogio. Ou o facto de ninguém me considerar fixe o suficiente por nunca querer sair à noite e não ter como objectivo de vida andar a vomitar na rua e passar os sábados de ressaca.

Hoje não tenho amigos, isso é um facto. Apesar de às vezes ainda doer e eu me sentir totalmente sozinha, eu precisei mesmo de me afastar. Foi bom porque ninguém veio atrás, então percebi que estar ou não estar era igual - talvez o problema fosse eu e não os outros, e se isso for verdade, então fiz o correto. Ao mesmo tempo também me permite dar mais atenção a quem se aproxima de mim. E tornei-me mil vezes mais selectiva! Por exemplo, aqui na blogosfera não conheço quase ninguém. Nem tão pouco falo com as pessoas. Mas sempre que me enviam uma mensagem eu algo do género, eu foco-me naquela pessoa e naquela conversa. E dedico o meu tempo a isso. O mesmo se aplica às velhotas na rua, que por vezes me param e, mesmo sem o dizerem, eu sei que esperam uma pequena conversa. Ou à senhora da caixa do supermercado que com esta situação toda não tem tido muita atenção dos clientes. Também é verdade que fiquei mais esperta a lidar com as pessoas. Dou atenção mas não dou tudo de mim assim. Quem quiser que lute. E aprendi a perceber quando é que cortam conversa comigo, me ignoram ou simplesmente não estão para aí virados. Aliás, isso topo eu bem e confesso que levo a peito.

 

Apesar de tudo, não nego estender a mão ao próximo; seja o próximo um desconhecido ou uma das pessoas de quem me afastei. A prova disso é que há dois meses um ex-namorado meu (que por sinal me magoou imenso) respondeu a uma história estúpida que partilhei no Facebook e a partir daí começamos a falar de vez em quando. Até o tentei ajudar com a rapariga de quem ele gostava.

O facto de eu não ter amigos não implica não gostar de pessoas ou não querer começar uma amizade... Significa que simplesmente não corro mais atrás de quem não mostra ser recíproco. Se não me respondem a uma mensagem, acham mesmo que vou mandar outra? Não tenho quinze anos, malta. Já deixei essa fase de ser social, sabem? De insistir nas pessoas... De adicionar pessoal que nem conheço só para ter um número considerável de amigos no Facebook. Inclusive por lá tenho cem amigos, e conheço todos - a não ser uma ou outra alminha que me adiciona por ter amigos em comum aqui da zona ou algo do género.

 

Não ter quem chamar quando o cerco aperta fez com que eu me tornasse mais importante para mim própria. É que, quando chove, sou eu que me abrigo. Quando dói, sou eu que cuido de mim. Quando choro, sou eu que limpo as minhas lágrimas. Se há pessoa com a qual não posso ficar zangada ou afastar-me, essa pessoa sou eu!

01
Ago20

escrever à mão

Hoje arrumei o quarto que já estava de pernas para o ar há demasiado tempo. Troquei umas coisas de sítio, limpei e aproveitei para rever o que tinha dentro da portinha do armário - a portinha que eu nunca abro. Lá encontrei dossiês antigos do tempo da escola e mais uma carrada de pastas com folhas do secundário. Também encontrei umas fotos minhas bebé e outras da primária. E por fim: dois postais que fiz pela escolinha... Um para o dia da mãe e outro para o dia do pai.

Sei que já está fora de moda, mas em pleno 2020 continuo a adorar escrever postais e cartas à mão para as pessoas. No Natal, por exemplo, envio sempre postais com imagens fofinhas ou religiosas, dependendo da pessoa. Eu sou mesmo das antigas. Posso ter o Facebook e o número da pessoa, mas prefiro mil vezes escrever-lhe uma carta. Tenho gosto em escolher um postal bonito e adequado para cada pessoa. E esforço-me muito para a letra ficar bonita (o que nunca acontece, mas pelo menos eu tento).

Escrever à mão para mim é outra coisa. É outro nível. É mais especial, eu diria. Sou eu ali, é a minha letra, é a folha em que toco e que às vezes até beijo antes de colocar no envelope. Sei que pareço uma tonta, mas ainda é importante para mim. Ainda é dos gestos que eu considero mais queridos... E assim como gosto de dar, gosto de receber. Pode ser numa folha velha, rasgada, dobrada. Pode ser apenas uma palavra ou um rabisco, mas tem um valor imenso para mim.

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26
Jul20

os meus avós favoritos ♥

Este blog nasce hoje. Não porque me apeteceu trocar, mas sim porque me senti obrigada a fazê-lo. Passou uma semana desde que a minha privacidade foi invadida e desde que me comecei a sentir insegura no meu próprio cantinho. Ainda tentei levar a vida normal, escrever os meus posts e comentar os dos outros, mas continuei a sentir-me vigiada. Não é um sentimento fixe para se sentir, sobretudo se somos anónimos por aqui... Sobretudo se falamos de coisas privadas que não temos como objectivo partilhar com as "nossas" pessoas. De qualquer das formas, já passou. Sei que vou ter mais cuidado agora. Deixo de confiar tanto nas pessoas daqui, e nas "minhas" pessoas também. Porque se não são capazes de ser honestos comigo e me respeitar, adeus ó Laura.

Este blog nasce hoje e por coincidência hoje é o dia dos avós. Decidi, então, dedicar o primeiro texto aqui no o meu blog favorito aos meus avós, que não só são os meus favoritos, como são os melhores do mundo!

 

Dizem que as pessoas criadas pelos avós se tornam mimadas. Não sei se é verdade, mas confirmo que o mimo dos avós é diferente do mimo de todas as outras pessoas. O mimo dos avós é doce. É dormir a sesta a seguir ao almoço, experimentar vinho aos quatro anos e aprender a rezar deitada a olhar para o teto. É ir ao parque andar de escorrega aos domingos de manhã, pedir companhia para ir à casa de banho de madrugada e acabar a dançar de porta fechada no espaço minúsculo enquanto se dá gargalhadas abafadas pelas mãos. É sopa quentinha, 7up e coca-cola com água.

Vi o homem mais precioso ser levado pelos matulões da ambulância e nunca mais voltar a casa. E cuidei da "mãezinha" como se a criança fosse ela. Também lhe senti a vida escapar, mas compensou saber que se cumpriu o seu desejo: morrer em casa junto de nós. Naquele quarto em que lhe confessei segredos de criança, como o coleguinha da creche que me pediu um beijinho. Naquele quarto em que tantas noites fui embalada pelas palavras "dorme bebé que a mamã já vem, foi lavar os paninhos à fontinha de Belém".

 

Foram antes do tempo. E eu cresci antes do tempo também. Gostava de ter continuado menina e gostava de ter continuado a ser criada por eles. Uma pena que a vida não peça a nossa opinião para nada e faça tudo à sua maneira. Se a vida tiver signo, com certeza é Escorpião.

 

Guardo os meus avós no meu coração, na minha memória, na minha alma. E assim eles vão vivendo. Não me lembro das suas vozes, dos seus cheiros nem de como eram os seus toques na minha pele. Mas lembro-me bem da pessoa que criaram. É a que tento ser todos os dias.